Mostrar mensagens com a etiqueta tradições. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta tradições. Mostrar todas as mensagens

domingo, 2 de janeiro de 2011

Ano Novo

Tem dias em que me dá para ser nostálgica. 
Quando os meus amigos me contam o que fizeram, e eu sei que não estive lá com eles, que quando voltar vão haver imensas memórias que não partilhamos. Quando vejo as fotografias e vejo que as roupas são diferentes, que um deixou crescer o cabelo, outro a barba, quando as nossas conversas começam por "nem sabes o que perdeste". Quando as novas coisas que eles fazem são as velhas que fazíamos, e as recordações voltam, e só dá vontade de correr de novo para os Aliados, subir a rua dos Clérigos e sentar junto à fonte dos Leões, com uma garrafa de Dom Simon do Pingo Doce aos pés. Tenho saudades das loucuras dos punks, da familiaridade dos hippies, das conversas intelectuais sobre o sentido da vida. Tenho saudades do skate, dos croissants quentinhos a cinquenta cêntimos, de ir acampar durante uma semana para casas de pais desaparecidos algures no mundo. 

Faz algum tempo que me tenho dedicado a outras escritas...as académicas e as pessoais. Podia vir aqui falar sobre o Natal na Polónia, sobre os doze pratos de comida que eles têm ao jantar, e no dia extra, o 26, em que ninguém trabalha. Podia falar sobre o ano que agora começa, e podia dizer quantas tradições  experimentei a noite passada com turcos, alemães e croatas. Mas o meu estado de Polonização tem muita coisa que nunca vai ser (d)escrita, e se vou começar um ano na Polónia, que seja relembrando o que está para trás, e que está presente, ao mesmo tempo, nesta mistura de ideias que é o meu mundo.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Łódź

Fim de semana prolongado - sexta-feira, livre; segunda, feriado; terça, tolerância de ponte nas faculdades, um hábito comum na Polónia, para que os alunos tenham tempo para ir a casa. Parece-me uma ideia mais que óptima, umas mini-férias nunca fizeram mal a ninguém. E que melhor maneira para aproveitar o tempo que viajar? 

Vejo-me assim no meio de uma estação apinhada de gente à espera para comprar os bilhetes. O dia 1 de Novembro é o dia de todos os santos, um dia muito importante para os habitantes deste país, que se deslocam assim às suas terras-natal, para saudar os seus falecidos. Coloco-me na fila mais curta, mas mesmo assim estão umas trinta pessoas à minha frente. Falta meia hora para o comboio, e de certa forma sei que não vou conseguir. A confusão é muita. Há pessoas a passar de um lado para o outro,  atrás de mim, à minha frente, a tentar colocar-se nas filas que mais lhes convém. As malas rebolam por cima dos meus pés, contra as minhas pernas, as pessoas empurram, umas mais gentilmente, outras mais à bruta. Faltam quinze minutos, a linha à minha frente não parece ter sequer mexido. Largo tudo e corro para o cais de embarque, o bilhete, compro-o no comboio. 

No cais, mais um mar de gente. "Matem alguém se for preciso, diz a minha parceira de viagem, mas entrem no comboio!". O motivo de tal aviso? Na Polónia os bilhetes têm uma validade de dois dias, pelo que arranjar lugar num fim-de-semana em que toda a gente parece estar a viajar, é uma pequena guerra civil. O comboio aproxima-se, as pessoas apertam-se. Corro para a porta. "Avariada". Corro para a outra. Está muita gente à minha frente, mas consigo entrar. Três lugares vazios. Perfeito. Mas nem todos têm a mesma sorte, e entre as cadeiras, há quem viaje em pé.

Quatro horas e meia de viagem até Łódź. No entanto, o fim-de-semana promete. Viajo com duas raparigas croatas, e juntar-no-emos a  mais um rapaz croata, que nos dará alojamento. Uma portuguesa entre croatas. A ideia não me assusta. Estou mais que habituada a estar entre os turcos, as espanholas, e, claro, entre polacos. Não perceber o que se fala à minha volta já faz parte do meu dia-a-dia, e de resto, fala-se inglês, que já vem tão espontaneamente como o português. 

Łódź foi uma cidade industrial, pelo que não há belos monumentos para serem vistos. Há, essencialmente, fábricas antigas e parques, e uma pequena zona associada ao Holocausto. Está situada em Łódź a última estação de comboio a levar judeus para Aushwitz, assim como o último ghetto judeu. Infelizmente, não cheguei a visitar estes espaços, mas há outras coisas para ver. Na Ulica Piotrkowska, a rua principal, as casas têm uma particularidade interessante - cada andar foi construído num estilo diferente, provavelmente para mostrar a riqueza da cidade. Também abundam, aqui, as estátuas dinâmicas, como eu lhes chamo, e que é como quem fala naquelas estátuas em que é possível interagir com as personagens - de destacar a estátua de um escritor que criticou a cidade e a sua governação, e que é agora detestado pelos habitantes, que pisam o pé da estátua e lhe apertam o nariz sem reservas, como bem se pode ver pela alteração de cor nestas zonas.

Ao centro da estrada, bem entre as faixas destinadas ao trânsito, há uma faixa com os nomes de todos aqueles que contribuíram para a construção rua. Estacionados junto ao passeio, carrinhos empurrados por homens em bicicleta, algo diferente, e, provavelmente, agradável de se experimentar. Algures a meio da Piotrkowska, a escola de cinema de Łódź, em frente da qual o passeio se reveste de estrelas com os nomes de actores e realizadores importantes que ali estudaram. Roman Polanski é um deles, sendo que este tem ainda direito a uma rua sua, não porque o Estado tenha decidido dar-lha, mas tão somente porque ele a decidiu comprar, um dia. 

Nomes inscritos no chão é uma coisa comum em Łódź, portanto. Falo agora do Memorial Park, um parque feito em memória do Holocausto. Desta vez, o protagonismo é dado aos judeus que sobreviveram e que estiveram presentes na abertura do parque, quatrocentos e poucos de número, e a todos aqueles que ajudaram a salvar os judeus, adoptando-os como seus filhos e dando-lhes, assim, identidade ariana, sujeitando-se a morrer juntamente com o resto da família. 

Mas mudemos para coisas mais alegres. Temos a Opera, espaço aproveitado para umas skatadas, devido ao piso lisinho, às escadas e aos curbs que por ali se encontra. Infelizmente os skaters estão a almoçar, sentados à sombra de umas árvores, que hoje até está sol, e a temperatura chega aos quinze graus. Do edifício sai música clássica, e rio, ao pensar na Casa da Música e como é quase irónico  que espaços dedicados a este tipo de musica acabam por se ligar à cultura de rua. Mas, música é arte, e as artes sempre estiveram interligadas.

"Nie mowiem po polsku"

...é, provavelmente, a frase que mais uso diariamente, para explicar àqueles que me abordam que o polaco ainda não consta no meu quadro linguístico. 

Falar polaco, é, provavelmente, o maior desafio que se apresenta à minha frente nesta viagem, pelo que já lhe devia ter feito referência há muito tempo atrás. Começamos pelas letras, um amontoado de consoantes seguidas que não parecem fazer qualquer sentido, e que no fim acabam por se revelar como uma quantidade abismal de chês e jês diferentes. Depois vêm os sons que nos confundem, como o -ch que se lê -h (não o nosso, que o nosso não se lê, mas o dos ingleses), e as reviravoltas entre o -o e o -ó, que em Portugal o -o lê-se -u, e o -ó lê-se -oh, se é que me faço entender, e na Polónia é ao contrário, o -ó é -u, e o -o é -oh. E se isto parece suficiente, acrescente-se as cedilhas em vogais (ą, ę) e os acentos em consoantes (ń, ś, ź) e as letras com adereços novos (ł, ż)

Segue-se a gramática. Para quem estuda alemão ou latim isto não é novidade, mas para mim, que sempre me fiquei pelo francês e o inglês, foi um choque tremendo quando vi que cada palavra tinha mais sete variantes. Casos. Não me perguntem porque é que eles os usam, continuo sem perceber, só sei que dão sentido às frases, que os polacos não têm artigos e é assim que se fazem entender. Isto torna-se numa grande confusão sempre que queremos usar o dicionário, que só tem a palavra no "nominativo", que é como quem diz a forma principal. 

Como se isto não fosse já confuso que baste, decidiram complicar-nos com os dias da semana, que a quinta e sexta-feira deles são czwartek e piątek, que significa, respectivamente, quarto e quinto. Ou seja, a quarta deles é a nossa quinta, a quinta deles a nossa sexta. Bonito. Só dá para descontrair um bocado quando olhamos para o domingo deles, niedziela, que significa, à letra, não fazer nada, ou para o expressão que usam para "andar de barco", pływać na statkiem, nadar estático.


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Sabores

Sair de um país é experimentar. Experimentar um novo clima, experimentar novos caminhos, novas pessoas, novos sons, nova arquitectura, nocas cores, novos sabores. E parece que o sítio certo para experimentar novos gostos é a Polónia. 

Podia aqui falar da comida típica - dos pierogi, uma espécie de rissol mas sem o pão ralado e cozido em vez de frito, que pode levar lá dentro desde cogumelos e couve, até batata, queijo, ou mirtilos; das bolinhas brancas, cujo nome não me lembro agora, que parecem pão, e que são acompanhadas por um molho à escolha. Podia falar da zapiekanka, uma espécie de baguete gigante com molho de tomate e outros ingredientes, uma pizza manhosa, como o Hardcore lhe chama; ou do rogał, uma espécie de croissant seco, com amêndoas e nozes lá dentro.

Mas não há nada como referir os estranhos hábitos dos polacos, que comem ovos mexidos ao pequeno almoço, que perguntam se queremos algum molho com a nossa pizza (e que boas pizzas aqui se comem, 54 centrímetros de pizza por apenas 8€, é de louvar!), e que comem kapusta como quem se serve de batatas fritas de pacote. E o que é kapusta, estão agora a perguntar? É couve. Uma espécie de couve branca, cortada muito fininha, quase ralada, diria eu. Também têm por hábito comer uma espécie de saladas com pão. Uma espécie de, porque tem vários ingredientes a nadar num molho qualquer, seja de maionese ou de iogurte, não sei bem, e que se vendem no supermercado como se vende a carne ou o queijo - têm compartimentos para diferentes tipos destas "saladas", cujo preço está estabelecido ao kilo. 

Por fim, há que referir as coisas banais, do dia-a-dia. Sabores. Sabores que eu nunca antes tinha visto, em objectos tão banais como bolachas, ou chocolates. Sabores como laranja e limão,  creme de amendoim, com pedaços de arroz tufado, canela, e outros que ainda estão por provar.... Com jeitinho, para não estragar a linha! Que isto dos sabores que vêm aos kilos nem sempre é muito boa ideia.